Flores semeadas pelos passarinhos do Ninhodaninha...

MENINO-NADA- A. P. TOCHA

Os Três Mal-Amados-João Cabral de Melo Neto

Poema roubado- Alessandro Lustosa - O menino do circo no olho

Estranho-flor - Alessandro Lustosa

Don- Alessandro Lustosa

verso meu nº 97- Paulo Roberto Alves da Silva

DO LIVRO DOS SONHOS - Orlando Cesar Neves - Landinho

O Pêssego- Manoel de Barros

Hilda Hilst

Promisputa roubado da Laine

Sem intenção Kelli Nunes
 
"A Serpente que Dança" de Charles Baudelaire
"Para criar passarinho" de Bartolomeu Campos de Queirós
"Mas há..." de Clarice Lispector
"O casamento das três princesas" da
"Começo a conhecer-me. Não existo." de Álvaro de Campos

"Entre o sono e o sonho" de Fernando Pessoa - enviada pelo Rui

"Sapiência" de Chico Science - enviada pelo Tal

"Pensamento vem de fora" de Arnaldo Antunes

"Soneto do maior amor" de Vinicius de Morais

"Quero a palavra..." e "Nasci pra ser o à-toa" de Manoel de Barros

"Excremento" de Aluísio Martins

"XV" de Manoel de Barros

"(...) Mas se Deus é..." de Alberto Caeiro

"Eu" de Florbela Espanca

MENINO-NADA

Ainda menino jogava bola de gude
Em chão imundo, a sua mãe se irrita e grita:
- Mininu! Ói a camisa, que grude!
E ele dizia assim:
-Mainha tenha pena de mim...
Trabaiei o dia intero no cantero de Valdinei...
E não tô em país de primeiro mundo...
Quero é brincá... Tô é sim é em São Raimundo
Tô sujo sim, mais jazim vô banhá no açude*...
A mãe dele aumenta a altitude da voz
Chicoteando-o de forma atroz
Por responder a sua própria genitora
Mãe solteira, trabalhadora, batalhadora...
Que sempre lutou por esse menino sonhador
E pra gente a história dele, ela contou:
O menino-menino tinha dez, já querendo ser cantor
Ele cantava diversos versos inversos
Ele cantava, não cantava e não encantava nada.
O menino-jovem tinha dezoito, já querendo ser sambista afoito
Ele sambava, não sambava e acabou não dançando nada.
Antigamente quem sambava sabia
Da arquibancada descia
Hoje, quem paga é que samba
E quem não dança é quem sabe samba...
E como ele não tinha dinheiro no ato...
O menino-homem já tinha vinte seis, querendo ser ator de Tv e teatro
Ele interpretava, não interpretava e não emocionava nada.
A sua ficção ficava distante da realidade do espectador
E o espectador ficava cada vez mais distante do nosso sonhador...
O mundo para o nosso artista foi ficando rude
A caatinga mais longe de Hollywood
E mais próximo da camisa suja, do açude e da bola de gude...
Ele chegou, não chegou e não enxergou nada!
Ele veio, não veio e não viu nada!
Ele foi, não foi e não foi nada!
Como a maioria de nossa meninada
Ele foi apenas um menino-homem
Que não conseguiu ser artista
Mas, agora está sonhando em ser eletricista...
E assim foi
E assim se foi...


*Açude = represa, dique;
 
Alain Patrick TOCHA, poeta dos versos ensolarados...
Os Três Mal-Amados - João Cabral de Melo Neto
Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha
certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus
cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu
escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas.
O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos,
o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura,
meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas.
Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X.
Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia.
Comeu em meus livros de prosa as citações em verso.
Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha,
escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou
o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro,
o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e
das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas
dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu
tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos,
botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras.
Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos
que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues,
aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido
das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas,
pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de
maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em
verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas.
Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que
as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta,
o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra,
as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite.
Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça,
meu medo da morte.

Joaquim fala em "Os Três Mal-Amados", "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas"

Poema Roubado

minto
é mais que muito
gosto do gosto
do teu rosto
muito
minto é de menta
o que se comenta nos meus sentidos
sou todo ouvidos pro teu cheiro
pro primeiro movimento
minto
no momento apenas com os olhos
sinto...

(ALESSANDRO LUSTOSA)
Estranho-flor

estranho oferecendo flores
meio estranho
meio desconhecido
ando menino na rua vendendo rosas
prosas em cores
estranho se oferecendo em flores
oferecido
meio ferido
meio espinho
desejando ser lume
e frisson de perfume
até que a lua no céu se atrele
o mistério
à ti me oferece
à flor da pele

não nus conhecemos
até o imprevisto se despir.

(Alessandro Lustosa)
Don

don
an
na
dom de emanar
e emana
o dom
da
dor
da
chama
dizendo
cala
criança
não
fica
perto
a não ser
que
se perca
na luz
a dança

*
não
sei
se
prego
piercing
ou
brinco
no
meu
ambígüo.

(Alessandro Lustosa)
 
verso meu nº 97
No tempo dos destinatários
Manhãs de sábado
Davam em cartas

Degenerei em versos
Essas cartas sem asas
Despencando nas gavetas

Narcisos esperam espelhos
Sonham-se anjos
Despencam de sacadas

Paulo Roberto Alves
DO LIVRO DOS SONHOS

Durante toda aquela manhã, observava o pássaro lindo e deselegante
sob a chuva, indiferente à tristeza que o dia, a janela, a grade,
provocavam.

Tentava fixar o pensamento em todo o tipo de acontecimento atrás da janela de grades
enferrujadas e prestes a cair: outros pássaros sobrevoando aquele que passava as
horas sob a chuva grossa-fina-grossa, novos pássaros perseguindo insetinhos
que não se via no espaço claro de gotas finas e reluzentes de chuva e luz variante.

Intermináveis variações de luz. Pontos iluminados e escurecidos de tudo, menos do
pensamento, este, constante, reto/desfigurado, sem novas - nem boas, nem más -
constantes pingos sobre a nuca de um prisioneiro sob tortura. Era assim que
se sentia, prisioneiro de um único pensamento tão forte que volta e meia sentia
calafrios viscerais que acreditava ser a premunição de uma chegada.

A luz mudou de novo. Deve ser por isso que um beija-flor surgira e sumira
tão rápido que mais uma vez intuiu, desejou, inventou suas verdades incidentais.

A luz espantou a chuva fina, construiu novas sombras, secou a plumagem do pássaro que
agora ofuscava os olhos com explosivos raios coloridos. Parecia mais animado, talvez
contaminado pelo vôo dos seus ou faminto por libertar-se daquele espaço de fome.

Talvez o pássaro também pensasse, intuísse, pressentisse alguma chegada, um sinal.
Num desejo insano, acreditou ser possível comunicar-se por alguns instantes com os
pássaros. E não é que um bem-te-vi aproximou-se, exibiu-se num bater de asas
estonteante, sobre um mesmo ponto, olhou nos olhos e através deles e, num único
gesto brusco, sumiu.

Mais uma vez acreditou ser um sinal, irreal, mas um sinal que por milésimos
de segundo aliviou a dor da espera. Espera que as gotas sob a nuca não cessavam.
Sem chuva os pássaros se foram e os sons que antes emitiam deram lugar ao volume
do rádio, ao barulho de um motor, ao choro de uma criança.

Através da grade, o pássaro só, parecia novamente triste, encorujado desencorajado.
Tentou pensar ser uma estratégia de caça, pois observou, num momento de distração,
que seu imóvel ângulo tinha se alterado e como uma estátua viva, surpreendia pela
imobilidade em novas posições.
Posições novas, imobilidade, foi o que se forçou pensar para escapar a entrega
a novos devaneios.

Durantes esses instantes a luz mudara outras vezes, aquecendo e resfriando a pele
que as gotas de pensamentos incessantes, insistiam em atormentar, transformar
silhuetas em mãos lindas e pés gigantes alados.

Arrepios remetiam a novos estados de aflição por um sinal.
A tortura começara a causar algumas dores: a irritação com o volume do rádio,
o abrir de asas do pássaro idiota, a chegada perfumadamente incomoda de um
humano com voz-amedrontadora-de-pássaros.

Orlando César Neves: Landinho.
O Pêssego

Proust
só de ouvir a voz de Albertine
entrava em orgasmo.
Se diz que o olhar do voyeur tem condições
de phalo.
(Possui o que vê)
Mas é no tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

(Manoel de Barros...)

Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(Do Desejo - 1992)

Promisputa

Alexandre, Márcio, Renato, Amilca, Janderson, Caio, Werte, Cristiano, Leonardo, André, Agenor, Edson, Antonio, William, Eduardo, Zé Eduardo, Ivan, Marcelo, Fábio.
Então me perguntaram:
_ Vichê, mais que tantos!!??? É uma mulher da vida! Ou será garota promiscua?
Respondo logo aspera e grosseira, sem muita paciência:
-Olhe para si: traseiro gordo acomodado num quinhão. Putaria ou promiscuidade, pode até pode ser isso então. A mim, a vida é muito preciosa. Cousa pouca não me basta não. Não paro com homem que sabe não trazer felicidade a uma mulher, nem trata-la como uma jóia única, rara.De diamante um filão.

Elaine Branco
 
Sem intenção

O encanto do inesperado
Aos poucos, real
Incontrolável
Nem sim, nem não
Perdoe a confusão
Letras soltas
Pensamentos em vão
Não há nenhuma intenção
Só a alma transbordando
Celebrando o encanto

Leia mais em Kelli Nunes

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A Serpente que Dança
tradução Jamil Almansur Haddad

Que eu te amo ver, lânguida amante,
Do corpo que excele
Como um tecido vacilante,
Transluzir a pele!

Sobre o teu cabelo profundo
De acre, perfumado,
mar odorante e vagabundo,
Moreno e azulado,

Como um navio que desponta,
Ao vento matutino
Em sonho minha alma se apronta,
Para um céu sem destino.

Nos teus olhos ninguém lobriga
Doçura ou martírio,
São jóias frias que são liga
De ouro e letargírio.

Ao ver teu corpo que balança,
Bela de exaustão,
Dir-se-ia serpente que dança
Em torno de um bastão.

Todos os ócios com certeza
Tua fronte movem
Que passeia com a moleza
De elefante jovem,

E o teu corpo se alonga e pende
Tal nave se mágoas,
Que as margens deixa e após estende
Suas vergas na água.

Onda crescida da fusão
De gelos frementes
Se a água de tua boca então
Alcança os teus dentes,

Bebo uma taça rubra e cheia
Muita amarga e calma,
Um líquido céu que semeia
Astros em minha alma!

Charles Baudelaire

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Para criar passarinho

Para bem criar passarinho é bom ter asas na alma, imensa inveja dos vôos e viver leve com as penas. Isso se consegue descobrindo a alegria de possuir um céu aberto como casa e ter como caminho a distância do nascente ao crepúsculo sempre.
Para bem criar passarinho é necessário ter o corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. Isso se alcança afinando bem os sentidos, para perceber sopros de flauta, cordas de harpa e murmúrios das perguntas e lembranças. (...)

Bartolomeu Campos de Queirós.Para criar passarinhos.

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Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata."

Clarice Lispector


O casamento das três princesas

Eu também quero uma verdade contada... ou será inventada?
Numa manhã ensolarada no jardim duma escola na cidade grande
três meninas fizeram um plano.
Um plano sobre o casamento de três princesas com três príncipes.
A primeira linda loura borboleta iria se casar com o lindo louro borboleto.
A segunda sorridente morena abelhinha casaria com o entrépido abelho moreno.
A terceira forte vespinha marrom com frágil e rebelde vespinho.
Mas os príncipes não sabiam do plano e talvez não quisessem se casar.
Então uma fadinha poderosa emprestou seus poderes para as princesas.
E elas então Plim! Transformaram os príncipes em estátuas, vestiram seus
noivos e casaram numa linda festa.

(Lú, nossa teimosia venceu...)

***
 
Queria ligar toda hora...
Queria falar das minhas dores, dores de amores...
E de fantasmas e bruxas
E de fadas e dragões
Cobras e lagartos
E de risos e trovões
Queria falar de nada
de nada.

, (minha amada amiga)

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Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos

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Entre o sono e o sonho

Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa

(Enviado pelo meu querido amigo Rui)

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Sapiência

Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente,
sem que sejam forjados para acontecer
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente,
Deixai que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes
como móveis inofensivos
para lhe servir quando for preciso
e nunca lhe causar danos,
sejam eles morais, físicos ou psicológicos

Chico Science
(Poesia que me tocou e que ainda toca, bastante.
Amo você minha Ná. Tal - 27.10.2004
)

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Pensamento vem de fora

Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

Arnaldo Antunes. Tudos

(Maluco que inspira o Silencio e outras sandices de Donana)

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Soneto do maior amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer-e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.


Vinicius de Morais

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Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
***
Meu amanhecer vai ser de noite.

Manoel de Barros.Livro sobre o nada.'

8.
Nasci pra ser o à-toa
o em vão
o inútil
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs.
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropirado para pedra, terei também sabedoria mineral.

Manoel de Barros.Livro sobre o nada.'

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Excremento

'A poesia é o subterfúgio
Do vagabundo requintado!'

Sou errabundo...
Peregrino vindo do caos.

Se ora aqui me acho,
Neste minúsculo astro
Outrora vivi em outros,
Sem moral e, portanto sem pecado.

Quanto falta para o fim
De minha alma secular?

O juízo final sempre espreita
Desprezando meu cansaço
Negando-me a desfeita
De conduzir-me ao vácuo.

Perdoe a pressa.
Perdoe não.
Não sei que palavra essa
Que se usa a esmo,
Porquê perdão mesmo,
Só na imaginação dos profetas.

Destruí mais que seu contrário,
Despedi mais que minha própria covardia
Pareci sábio,
Menti com maestria.

O mundo não precisa de poetas,
Que nada consertam.
Pior, vendem os sonhos bestas
De que o mundo tem jeito.

Morte me leva...
Vida,deixa não...
Faz da morte a preterida.
Um pouco mais antes de me arrepender.

No fim, meu extermínio,
Quero virar esterco,
Fétido,
E, como flor nascer
Aluísio Martins(ninho de devaneios)

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XV.
- Quem é sua poesia?
- Os nervos do entulho, como disse o poeta português José Gomes Ferreira.
Um menino que obrava atrás de Cuiabá também
Mel de Ostras
Palavras caídas no espinheiro parecem ser (para mim é muito importante
que algumas palavras saiam tintas de espinheiro).
- Difícil de entender, me dizem, é sua poesia, o senhor concorda?
- Para entender nós temos dois caminhos: o da sensibilidade que é o
entendimento do corpo; e o da inteligência que é o entendimento do
espírito.
Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser árvore.
Manoel de Barros. Arranjos para assobio.)

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(...)Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.(...)

Alberto Caeiro. O Guardador de Rebanhos(1911-19120)

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Eu ...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

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Página modificada em 28/08/2006 às 17:26
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