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Língua mal dita! De tanto falar pra caralho De tato e de falo Falho e me embaralho Calo De tanto dito e redito Redijo, repito e redigo Que o calo na língua me cala Árvore ![]() Lu Dancegirl ![]() Da cor de Iracema, com ancas de gringa Carrega a parda cor bem de Dita na ginga O dia já foi e anoitece, mas o céu não escurece Vem Ela, desponta rodeada de luz, lhe aparece! É ela que alua, é Ela a tua madrinha Lua Acende pra Ela uma vela, entoa uma prece, agradece! Bate caixa, chama o tambor, embola na roda da saia Cante um coco, levanta a poeira, até que de novo o sol saia É hoje é teu dia! Dance menina, Mãe de Maria Luz, encanto e alegria, E até mesmo o danado do amor, Ela nunca há de te negar, seja lá como for É hoje tua noite de lua, de festa e magia Dance girl! Dance até raiar o dia CHAMADO
![]() Soou suave... De asa assaz travessa... Veloz soou como voz No vôo, há vez, sou Ave... ॐ Vens com mãos cheias de mimo Acordes com tons de choros sentidos Sons com dom de acordar calados ouvidos Vens quase um menino a mostrar brinquedos No olhar, investiga; na boca, sorriso reprimido Palavras economizadas valorizam segredos Doa a cor, doa a dor dos sons que te falam Na ânsia de se fazer presente, roça teclas e cordas Dedilhas memórias sonoras que me embalam Pisando macio revolve os restos da última colheita Deixas vazar cheiro da terra que ainda me amorna Entre folhas e raízes, faz ninho e te deitas Me entras pela boca e me soas pelos ouvidos, me acordas ... cascas
![]() Escorre Cana Desce Doce Garapa Escorrega Pelo braço Da memória E cola Na história Traquina Do abraço Melado Da infância Beija-flor ![]() Me enfeitei de flor Pra encantar passarinho Beija-flor! EU [+sou dada ao cultivo de lírios rosas e espinhos me habitam flores azuis que me trepam me despem em noites de lua,// vasculho em cantos só nua me// (a)visto de mim +] E porque hoje tem pestade Doce e sereno segredo com promessa de tempestade Te escrevo como se tocasse notas de um piano inventado Como se pudesse te encantar imitando vozes sagradas de Ninas e Billies Ouço suas surdas respostas nas loucas de Ward e Waits Não seremos tão serenos sempre Temos toda culpa das invencionices de que nos fizemos Porém, prometa! Quando ao alcance das mãos Não economize doces promessas Nem as profundezas de olhar Navegue-me pelas estranhezas Submerge nas fossas das entranhezas Mas jamais me dispa das vestes tênues da ilusão (Talvez eu só seja se assim o flor) Receita caseira pra acabar com medo (de criança crescida) Há dias em que ele é miudinho A gente nem percebe que ele está lá Na gaveta da cômoda; não incomoda nem nada Mas tem dia que ele cresce Como massa de pão Feito com fermento bom Expande, incha e se apodera Do Peito até espremer a coragem Que também mora lá Isso é bem do seu costume... Mas nas noites frias quando ele estufar E começar apertar e sufocar Faça um chá de erva doce E tome com biscoito de nata Não importa se na porta da alma ele bata Se enfie sob o cobertor bem quentinho E sonhe um sonho de ousadia, quando raiar o dia Verá que ele voltou pra gaveta, de novo miudinho... do medo I. Vem com seu manto vazio Envolve como vento frio Contrai pele e músculos Enrijece os nervos Empalidece a face Turva a visão É ele, o medo Que me leva pela mão Em noite de escuridão II. Mãe, vem! Me acende o lampião Alumia os meus caminhos O temor me enfraquece É ele que me afeta Com tanto afeto E faz de mim de novo um feto III. Vai medo! Sai! Sou leão! Sou árvore centenária Sou rocha que vem do chão! Tenho mais covardia não! Sai! Não se achegue! Carrego ainda comigo A tocha da ilusão É com ela que te cego! É com ela que te queimo! Sai! Tema o fogo da paixão É ele que me domina Fica bem longe então! Pois pra ti não há mais sequer Um fiapo de compaixão... A Ninfa e o Menino do circo no olho Dividem as goiabas roubadas... Embalam-se nos versos De antigas canções de meninar Brincam de pular abismos Alheios a qualquer perigo Trocam monólogos... Fiam a prosa com fios De versos solitários Que se emprestam Caminham pelas trilhas das estrelas Buscam as pistas da lua despida Colhem os cheiros dos causos da roça Que brotam na terra molhada da memória... Nos cantos iluminados da escuridão, Encontram-se às escondidas Longe das vistas da razão... Pelas janelas que se abrem, Espiam com estranheza A loucura de suas belezas... Disformes, assumem a forma fria Do azul da luz da ilusão... Aludem o espectro da paixão... Vertigem, miragem, viagem sem despedida... Ausentes se fazem imagem do preciso delírio... Olho Mágico ![]() Lá fora...A vida rola. Lá vai ela... Aqui dentro agora, abóboda,ágora banal. Sepulcro...Aquário...Real? Girando no prumo-destino,rumo ao exato... Norte fadado... Círculo incansável, Redemoinho... Rosa sem vento Moinho... O que resta? Quirela de vida? Querelas... Blue Life ![]() Acordes Som Blues... A cor da vida Jaz cinza Despeito A despeito Do meu jeito Tão afeito Ao afeto Meu peito É um sujeito Despeitado! FAZ DE CONTA I. Eu te fiz de contas Uma a uma Enfileiradas Num fio invisível Eram quase todas translúcidas Algumas de luzes coloridas Furtaram-me sombras e dores Mas no fim das contas Gotas de vida seca Respingaram no colar De cristais de açúcar E dissolveram O doce que te recriava... II. Fazia de conta... Que me eras encantador Que eras ludibriador Que a brincadeira Não era a dança das cadeiras Nos teus olhos apagados Fazia brilhar duas meninas Eram elas que atraiam-me a espiar A alma que te inventei... A que era de vidro e se quebrou Pensavas mesmo ser o menino que te pintei? De novo o intento Do invento de éter no amor Tocar Estendo os dedos Estico os membros Distendo os músculos Mas é porque longe das mãos Que te pretendo tocar Desafio Se ao alcance da mão estivera, Era agora e sem demora Que assanhava tua chama Que me clama... Lhe dava na boca um gosto de amora Atiçava a fome que te devora Tocava-te com o dedo do arrepio Eriçava-lhe dos cabelos cada fio Te molestava com febres e calafrios Atormentava-lhe o desejo até o desespero Mas depois, como paga do meu destempero Te arrastava para minha cama de dama E sem apelo ou qualquer preço Fazia de mim seu endereço Fazedor de riso ![]() Foto:Rosa dos Ventos Ha! Ha! Ha!Ha! Que ironia! O palhaço Alegoria da alegria Chora na perna de pau Mascarado! O descarado finge dor! De surpresa: Espanta Assusta dor! Das caras cheias Que passeiam feias Faz sorridores! Máscaras de verdade (ou: sobre o que era vidro e se quebrou) ![]() A farsa Disfarça A desfaçatez Foi tanta força No fórceps Que no verso Virou o inverso: De tão falsa a realidade Fez-se face da verdade * Cai a máscara Descarada a face que me era cara Desfaz-se e cala! Sem sentido ![]() Dispo dor Caíram as penas sobre as costas Saíram as peles mortas sobrepostas Quedaram as que eram verdes Vergaram os que foram fortes Ao ver-me nua... Perdi o pudor da dor Desire II Toda prosa Roça A rosa Nas coxas Arrochada Roxa-rosa Verte Vermelho-leite Do desejo-verde Sopra ver-te Só (r) ver a dor do desejo-ar-dente! Pecado ![]() Foto:Heitor Florence Apimentada cor Arde nos olhos De quem a ver me lha Tormenta Chamados Vespertinos Vespa Em desespero Destempero Ardência Sem pimenta Tormenta... Passarinho Quando o peito aperta abro a gaiola, deixo a porta entreaberta para o passarinho sair... Mas ele fica quieto e calado lá dentro, prolongando o sofrimento... Não sabe se quer ficar, mas tem medo de voar para longe; teme ficar preso, privado da amplidão do vôo... Tolo passarinho, não percebe que no seu ninho, as penugens da liberdade é que o aconchegam com carinho... Brinquedo II ![]() Sob o segredo dos teus lençóis ateus Profanamos nossos corpos-brinquedo Lúdicas luxúrias lúbricas Derramam o leite do gozo Sobre nossas almas à toa Anseios ![]() seios alvos do desejo: anseios... Desire ![]() AGORA deleite-se! antes que o sol se ponha antes que a lua mingue antes que as flores caiam antes que o outono finde antes que fantasia desbote antes que o abraço embarace antes que o beijo amargue antes que o desejo esmoreça antes que o aconchego esfrie antes que o corpo se feche antes que o olho enxergue antes que a língua se cale antes que a alma doa antes que o riso sem-grace antes que magia desencante antes que a música pare antes que a paciência acabe antes que a chama queime antes que a brincadeira termine antes que a paixão emburreça antes que o jogo suje antes que poesia endureça antes que você não mais mereça Mas antes só agora do que nunca (Para Cláudia Gomes) Doce de Leite ![]() no doce deleite no apelo do espelho deleita-se a moça
![]() Laura ![]() Alumiador ![]() (Foto:Heitor Florence) Imagem que me revela a coragem do sofredor que se rebela contra as trevas de só sofrer dor Imagem que me revela a viagem do sonhador que leva no andor a vela pra alumiar os caminhos de dor Imagem de fotografar dor Vertigem Olhar de provocar dor Lente que espelha A cruz e o desalento Dos que carregam com ardor O sofrimento lento De perder dor Porcelana Não é Lena Nem Lana Não é Dalva Mas é Alva Por sinal Não é Pura Qual Cal E nem é por mal Mas na loucura Jura Que por ser Ana Pensa ser PORCELANA Não é plana Nem branca Nem tela Mas em cena É plena Insana E por ser Ana Nas curvas-klimtianas Cravou na pele As flores azuis Dos jardins De Diana Sorriso ![]() No olho Sorri a mina Que ME vê NINA Brinquedo I ![]()
![]() Na Fila um Felá Fila Um Filá De Fular Mel E Fel Fela Kuti Sa ca o Sax Só Fone Incuti Som De Festa Femi Escuta Femi Nina Baila Mina Dança Nana Açucena Africana Alucina No som De Lírio primitivo No Tom Original African Mãe Deleite na lata Me nino Meu mimo Me nina Me aniña a menina No niño que nino no leito de l e i t e ![]() Nana De Pai nasceu quase um Duende Da mãe engoliram o Rodrigues Antonia chamou-lhe Ana A avó lhe queria Cláudia Quando lhe deram um mano logo, virou Dadá. Quando Nasceu Lu, Naná. Na brincadeira dos mimos Um marido Ninou-lhe Nana A criançada Pequenininha Escolheu Aninha A magia da poesia Forjou Donana Dadá Nana ou Naná. Ná Aninha ou Donana. Chame De trás Pra frente ou De frente Pra Trás! Não Importa Por Qual Porta! Sempre Virá Na Chama Aquela Do Nome Ana Que na Lua Cheia Incendeia e arde feito Diana Nina... ![]() Me Nina Linda Simone * Meu Mimo Me Nino Me Nina Me Niña * Me nina Me aNiña Me nina Nina:“My baby just cares for me...” Gozo Verborrágico Engana-te ao pensar Que não me vês Enxerga bem mais além Do que a visão o poderia: Conheces bem minha face de vadia Oferecer-te-ia a cara (e a tara) Se não a visse com tamanha ousadia Avalio a avaria (Que já provocas a revelia): Tua mão artesã de desejo Provoca e sacia a sede d’água fresca Vertida da tua mina de menino. Mina meus pudores, Bolina meus sabores Delicio em deleite O prazer da tua língua morna A deslizar do nunca a nuca Na Terra do Nunca, se luz se fizer Sou Lúcifer, Mas também sou du(e)ndes, Fada, arcanjo, menina e mulher. Destapo o aquário onírico Convido-te ao mergulho: Entre pernas de desejo, Mãos de lamber Tronco de aninha(r) Labaredas de línguas Do enrosco sôfrego Exala um cheiro de sexo Da carne ainda desconexo... Entre coxas vaza o meu pelo teu desejo... (Escrito em 27 de nov de 2004) ______________________________________________ Mar (...) amornada as coxas, na colcha de micro cristais de quartzo, o calor trepa-lhe a epiderme, como hera em muro, Aninhada na derme da cama quente, molda os contornos no lençol de areia alva. Inerte, embriagada, pelo sol que lhe aquece a face, desfaz-se a tez em devaneio(...) Na espera do absoluto-mar, lamber-lhe o sal... Cielo ![]() no céu do seu abraço... Tira me tiras o couro em tiras no coro de mentiras morremoça ![]()
![]() Tenho uma brasa-paixão que nunca se apaga, vez por outra, (in)chama! (a)Nexo Pior que a puta Que vende o sexo Desconexo de amor É a pura Que troca a alma por dor Camélia Olhei e senti um gosto fruta-cor Cheirei e vi um som amarelo-flor Na língua ouvi um cheiro rosa-ardor Na falange um sabor manga-amor Parecia bromélia Margarida Papoula Vitória-régia Mas não era! Era ela que vinha: Lelia-camélia! Expiação ![]() Na soleira da vida sépia o menino espia Rosa-hilst ![]()
![]() Na superfície da fantasia Ainda forjamos o profundo Talvez o engano Não há um plano Há só o louco desejo De desejar o fundo (das almas andarilhas) Há só um apelo Vontades devotadas: De pele e de pêlo negro e alvo claro e escuro Contrastes desbotados nos suores da loucura Olhares à procura do absoluto-mar Na velocidade do vento: Santidades ensandecidas, Galopamos tempestades Mina Na retina A menina Mina Mira a visagem da dor Mina a coragem do amor Lágrima-lava leva as cinzas do desamor Lava da boca o dissabor Renasça menina Fênix-flor!
![]() face em si nua a minha desface tua a tua faz-se minha Afloro mais que dantes só (a)floro no verão mas quando pensa que não no inverno dou um botão na prima que é vera quando menos se espera viro uma hera no outono (des)folho (Para Mônica-Manika) Sê-lo ![]() vi no retrato o homem o cão e o cavalo no ato da muda divaga-ação De relance vi bergman na nuance da cena (death and man) vi o sétimo o selo talvez sem nunca o sê-lo (Para Lelia, amiga de rima...)
![]() Será a vida um jogo? -de azar e sorte - A arte de diferir a morte? Niño * levo-te dentro como quem vela pela vela ao vento * mãos em conchas protegem mas não apartam-lhe da liberdade do ar... * sopro as tuas chamas para que queimem soltas * só pra que sintas que não estás só * (Para Marcello Pio) Menina menina travessa, ao trabalho é avessa, atravessa travessas através das travessuras da vida esqueçe as agruras dos sonhos vive a procura essa não tem mais jeito já não tem mais cura confessa ao avesso, que só tem apreço pelo travesso sujeito enamorado do verbo transverso do verso menina travessa apoquenta e azucrina não sossega se não bolina na mesmice da vida sem rima Inteiros Recuso metades Plena e intensa Só pretendo o inteiro. Meias verdades, Meias palavras, Meias furadas, Meias taças (a meio peito) Jogados sobre a cama... Entremeios Meia boca Meio beijo Paixão meia boca Ah não! Fique com elas Sou sem noção Sou só completa Se a ilusão For inteira vício noviço No viço Do vicio Nocivo Do cio Noviço Me perco No parco Delírio Do lírio Embarco No barco (Embora com arco) E me armo De armas De armar Armo o barraco No barranco Na ribanceira Da vida Sem eira e nem beira Me lanço E me enlaço No descompasso Entre o tempo e o espaço E me perco e me acho No desatino e no asco Despacho o penacho Da dor do medo de amar Poemas curtos e grossos * gozo gasoso evapora vira as costas e vai embora * * Branca Lauda, (Ágora Da Poesia) Põe Pra Fora, Poemas Agora! ..*.. Linha Não Me Falta Me Pauta! * carrego-te com zelo de quem leva ovos no avental * vai só ida vida vadia vai vadiar vida vazia vai! esvazia a azia indevida da vida ávida de vida * Piso na azia das palavras amasso, espremo torço e sai um sumo verde-limbo que penso chamar poesia mas isso é pura fantasia de quem tem ânsia da mesmice do dia * rimos - rumo à arritmia da rima - sob a lua nua * Intensa tez - da loucura - que da vida entorpece a agrura * Na pele - A sede da seda que cede do cetim - Lábios carmim * Despe-me (Nua e tua) E me dispnéia * Da loucura Que esporra Da tua lua (Que me alua) Me cura Com curra * toca um som que vida é boa baixa o tom que a voz ressoa boa mesmo é vida à toa * rimas e runas rimos nas dunas e as cúmulos passeiam no céu, avoadas... * nuca nua nunca tua agora à vista embora arisca * Sem demora Fique dentro Fique agora Fique até o fim No centro Da ágora que há em mim Balança ![]()
![]() Horizonte Arrepio ![]() Embarace (leitura de Klimt) Entrelaçada na laçada do teu braço No nó do teu abraço Embriago-me no onírico do teu cheiro Perco o chão, o norte e o rumo Nas noites de meias luas Entre translação e rotação saio do prumo No compasso lento do embaraço Tuas raízes cruas invadem-me as partes nuas Salto então plena na imensidão do teu espaço E forjo do teu barro e do teu aço A quimera do amor verdadeiro Mergulhada nesse amasso Afundo-me no teu mundo E já não mais sei onde começa e termina o meu no teu inteiro No delírio mudo sumo no teu fundo Nó nós nas pernas, nós nos pêlos, nos inteiros, nós nas tripas, nos começos, nós nos chamam, chama inteira, nos cabelos, nós os nus, nós Anais, nós nas almas, nós os Nin, nós nas línguas, nós nos troncos, nós nos bicos, nós nos cheiros, nós os bichos, nós no nicho nós nos nós Agora Por que te pranteias? Lava esta cara em riacho corrente Deixa ir, enrolar, Embolar nas pedras As farpas que ferem Esfrega essa cara Enxuga esse pranto Abranda o soluço Suspira o alívio O açoite cessou Afaga a face na brisa fresca Embriaga-te no aroma do jasmim Unta a pele em azeite e seiva de alecrim Deita em lençóis de seda Ceda ao alento Descansa! Aceita a calmaria sem culpa Aproveita do não sofrer Na ágora brinca o instante do agora (Pra Landim e Kelli...) Jeanne Entre e feche a porta. Tateie no escuro. Pise macio. Não faças barulho. Entre como brisa em arrepio Não digas nada. Espie. No olho a tela a óleo: É ela. Delira Delicia-se. Não assuste. Assunte. E a ti verás Refletido Na retina Dos sonhos De menina expelido ![]() Íncubos Desassossegas-me as noites Sorris angelical, ó demônio! Mas a malicia vaza-te da boca Doloso e nocivo: éter e ópio Desperta-me a lascívia tosca Sem licença nos sonhos se deita Açoita-me sem piedade e se deleita Envenena e extrai-me o desejo abjeto Bicho faminto caça-me fêmea-objeto E desperta a peçonha de ti afeita Acende o fogo dos tormentos Assopras no ouvido do sono a luxuria Arranha a nuca da ébria loucura Bolinas corpos e pensamentos Lúcifer de garras me aproprias Lê-me os dormentes segredos Desnuda-me latentes fantasias Faz delas demoníacos brinquedos Agora serpente: rastejo nos passos da demência Eu Cúmulos Nuvem diluída escorro Fria na tua face quente Gota escorrego, percorro o pescoço Amornada desapareço Misturada ao suor do teu dorso Faço-me em ti o teu sal Não percebes, mas não andas só; Caminho sobre ti feito as cúmulos Branca e acolhedora Deslizo cortinas sobre tua jornada Vendo a claridade que te queima Sombreio teus caminhos duros Ao te vê-lo, menino de olhar perdido, velo-te! Lá vem Donana Lá vem ela, vem faceira No balanço ingênuo da trança Esconde! Quando inteira verdadeira Vem ligeira a feiticeira Traz magia de criança Vem Antonias, vem 'Racema, vem a Pura Enfeitiça curandeira! Na procura traz a cura pra loucura Sorrateira vem na espreita Observa pela fresta Suave e doce nem suspeitas Mas não presta! (Inspirada na ciranda de ser feliz com menino Pio e com a menina Manika) memórias de nuvens nuas ![]() um pássaro no ninho um coelho um novelo um pintinho um camelo uma ovelha um ursinho uma orelha (De volta o pintinho) uma mãe um anseio uma filha um passeio na tarde a caminho A vida Havia a vida ávida de vida Na via havia o tudo no fim da linha A ave de fantasia despida Aquela que à mente advinha Qual salto de Ícaro na partida O quê o vácuo evacua agora, O nada sem luz? Onde há o devaneio de outrora? A história sem fada não mais reluz Faustas conquistas falsas Hão de fartar-nos nos fados Errantes como as balsas Que nos arrastam nos babados Das ondas em valsas Onde há o fogo que alumia? Pergunta o poeta Há ali sob as cinzas da alquimia O que mais nos resta? Ilusões em réstia? Ao fado fadado ao fracasso Reservo a adaga afiada O asco amolado do aço Perfuro-lhe a entranha esvaziada E me aninho nos delírios em que me enlaço (hoje e sempre) (das correspondências com Eric B.) Não entendo, porém tuas metáforas, Dizes querer-me sal, que quer afinal? Queres-me carne, Queres-me em pêlo? É isso um apelo? Queres-me matéria etérea? Queres-me diva e casta? Sou também puta Como tantas Queira-me! O que já tens de mim já não me basta Diga-me poeta: Sem troça e sem demora Amora e alecrim? Linho e vinho Deitar-me em teu ninho? Ou na relva d’aninha? Oferece-te o mundo do absurdo O meu sagrado e o meu obscuro Vejo-te cara lavada Ver-te, quase verde, Não afasta o poder de recriar-te Sapo encontrado, príncipe torto, Homem feito (preso e solto), menino-brinquedo Poeta, profeta, cafajeste. Tenho de ti a ilusão de matéria Assim como tens de mim olhos de menina Que brilham na cara azul de mulher dos 30 Que venham os começos! (Desejo começos eternos, porque começo é sempre o começo de ilusões perfeitas) Com tropeços, sôfregos agora Porque espero sem demoras pelos teus 0,5 E pe(ê)los teus inteiros (Pro Henrique, meu querido, que vem chegando...Pros meninos que se negam a crescer...) 1º Ato. (O encontro) A surpresa: suprimida pelo olhar de desdém, pelos gestos mecânicos. O simulacro da familiaridade oculta o desconforto da estranheza dos corpos. Aproximam-se num toque autômato quase imperceptível, como se assim pudessem dissimular o incomodo do estranhamento inicial. Fingiram-no casual, quase banal, o encontro, como se fora mais um, como se não fora o primeiro, quiçá o único. Olhares disfarçados radiografam os detalhes; mãos suadas, apalpam-se como se quisessem uma penetrar na outra no desespero de camuflar a inquietude, na boca a palavra seca, nos olhos cortinas cerram o medo de ser lido. O silêncio denuncia o mal-estar do inusitado. O tempo curto amplia a ânsia de abreviar a distância. A cumplicidade da alma cala-se frente a desconhecida matéria. Feito bicho acuado rondam-se e revezam no papel de presa e predador, espreitam-se esperando um descuido, um deslize que revele a fraqueza, que dissipe a dissimulação. Privados do toque, investigam o território do corpo alheio, seria incivilizado ceder aos impulsos dos sentidos sedentos. Escamoteiam o desejo inevitavelmente aflorado... 2ºAto [Es(x)piação] Músculos afrouxam-se, acalmam-se as mãos; palavras amansadas e diálogos causais relaxam a língua tesa. Abrem a guarda, embora vigília permaneça. O nervosismo desbotando solta a gravata do sufoco; os olhos permitem-se o espelho, buscam o fundo, desembaçam a retina, agora procuram os reflexos, expõem-se à leitura, quase didáticos ensinam o caminho. Encaram-se. Rondam ainda, explorando nos odores as pistas, trilham a geografia ignorada, espiam nas frestas os relampejos descuidados do interesse. Questionam-se, sem respostas evidentes. Um cala o outro escuta; palavras estratégicas que não dizem nada, frases disparadas preenchem o silêncio que balbucia mais do que quisessem dizer. Peles e pêlos traem-nos, dão voz ao corpo, até então, abstraído. Um toque forjado: os olhos deslizam sobre a matéria, afagam a energia expelida no frêmito. Oscilam entre a tensão e o conforto. Aproximam-se sorrateiros. As vibrações se fundem. Postergam o toque; apreciam-se as carnes expostas na tela que se oferecem. Estão ao alcance de todos os sentidos, como nunca o estiveram. Cabelos ao vento, embaraçam o carmim e castanho, a brisa úmida e fria acalma a febre, espalha no ar o convite ao entrelaço. Qual o próximo passo? Qualquer gesto abrupto os espantarão para longe, feito pássaros selvagens... Penetram-se sob o resguardo das fronteiras que se diluem... (continua...) inquietude, encontram-se no espectro do outro. A estranheza ainda existe, carecem da proximidade, falecem as forças de ataque, entregam-se na espera: são presas fáceis. Escondem as garras, ronronam, insinuam. As mãos se oferecem, a pele apela o toque. São agora flor e abelha, ninho e passarinho, música e dança, riso e fantasia, nuvem fofa e céu azul. Convidam-se ao refúgio. Imantados seguem em paralelo, caminham a passos lentos pra que caminho não finde. Deixam-se levarem mudos. Prescindem a palavra, entendem-se nos gestos. O verbo é vazio. O hálito perfuma, a pele aponta a direção, o cheiro atrai, as cores descrevem as texturas: os corpos são gêmeos. O espírito se cala: bicho não tem alma. Abstraem-se na matéria, não há mais tempo e espaço, flutuam entre os outros alheios ao mundo. Ignoram, por um instante, o todo a que pertencem, ocupam o único nicho de silêncio que restou. Dispensam o olhar, advinham o odor doce e a maciez da tez; a despeito da mão, já se tocam. Escapam-lhes os sentidos: instinto! Perdem-se no conforto do abraço do desejo! A vez da voz A surpresa da voz. No desconserto do inesperado prazer de ter mais um pouco, balbucio, quase tola, palavras superficiais que inutilmente teimam em ocultar o deleite e o riso dos olhos. O embargo da voz diz-te mais do que minhas intenções. Junto fragmentos, e quase te toco. Dos teus pedaços de angústias, dos fiapos de sonhos, das migalhas de delírios, dos fios do desejo forjado, teço-te em linho branco e macio, vejo-te menino e amo-te mais. Onipresente, insistente e caprichoso no fazer-se existente em mim, no esmero de escultor de palavras, alcanças o poder de feiticeiro, tua obra já desliza sutilmente sobre a minha face, imaculada do teu toque, os dedos delicados da ilusão. Gozo do teu prazer, choro a tua dor, rio o teu desvario, toco a tua sensibilidade. (Para Eric, mago das palavras) Potra Espere-me por hora Sem rebenque e sem espora Marcho agora sem demora Ao som de relincho novo Crinas soltas, passos leves, horizonte aberto, Relva verde, riacho fresco. Brilho e força na cavalgadura Que se inaugura (Em resposta a RR) Brincança Se a hora fosse ainda aquela de magia, Se luz alumiasse a cara da noite pintada de fantasia S’inda hoje eu pudesse tocá-la com o dedo mágico da infância Se a fadiga da brincança ainda me sorrisse vazia E os sonhos me abraçassem o sono ao fim do passeio Retomaria eu o encanto De menino que toma nos braços a felicidade sem receio (Inspirada na sensibilidade do olhar de Heitor Florence) Volta para o topo
Decoupage A morte lhe cai bem! O pecado mora ao lado? (Não! Mora dentro!) O coração é mesmo satânico? Sim, eu tenho medo de Virgínia Woolf E espero que the end is near, não esteja mesmo próximo A um passo da eternidade, me pergunto: Qual será a minha verdade? Aquelas que ouço dizer? Terei mesmo uma que é só minha? Serei eu apenas decoupage de dizeres da humanidade? Sim, sou isso e mais aquilo que inventam todos os dias É em vão pensar-se único Somos matéria da mesma prima Tabula rasa preenchida de copiadas rimas Retratos desbotados, filmes puídos, Versos empoeirados, vinis esquecidos... Invasões bárbaras de almas? Assim caminha a humanidade? Pro declínio do império americano, ou Pro perpetuar da sua beleza fake? Já é tarde demais pra esquecer... Mas será mesmo que nada é para sempre? Não é assim que tem sido? Não somos apenas condessas descalças? Belas da tarde? Nossos crimes sem castigos Serão queimados na fogueira das vaidades? Que nada, somos isso mesmo: Colcha de farrapos humanos! Volta para o topo
Clarividência (ou Clara evidência) Eu vejo o que pensas, E o que pensas ocultar, Espreito as tuas incertezas. Vejo a tua covardia camuflada de ousadia A tua vaidade disfarçada, A tua verdade mentida (metida à besta!). Eu te olho de dentro, com o teu olho! Vejo teu futuro nos teus instantes, Vejo teu passado incipiente no presente. Vejo as ervas daninhas, as pragas, os fungos, os espinhos, Tuas vinhas (da ira) envenenadas, Que vicejam na tua mente indecente E alimentam tuas crias peçonhas. Oculto na tua solitude, Eu vejo o teu desdém pela dor que não é tua. Enxergo-te do avesso: Vejo tuas vísceras negras putrefatas, Tua miséria gosmenta vaza pelos cantos da tua boca, Farejo o hálito fétido das tuas palavras azedas, Sinto o gosto ranço da tua amargura infinda. Tua língua ácida queima, feito lava (arrasa, arrasta), nunca se cala: Fala, fala, fala despropósitos sem propósitos, No desvario de preencher o nada (o vácuo da tua alma pequena). Ouço o brado da tua ira, Tateio a tua aspereza, Ausculto a tua inveja pulsante, Farejo a tua avareza (que vareja tuas entranhas), Leio os teus pensamentos repugnantes. Sou vítima da tua falsidade dissimulada, Mas me confessas, sem querer, teus pecados absurdos. É em vão fingir (não me escapas pelos vãos), Adivinho o teu destino, Tuas dores latejam em mim. Inútil negar o inegável: O improvável é o mais provável na tua mesquinha existência. Vejo-te com absoluta clareza! Vejo-te assim: Reflexo do que sou. Vejo o óbvio: Você é o EU, que há em você e em mim Volta para o topo
Provo ca ações "Milhões de frases sem nenhuma cor" Asas negras revolvem A magia empoeirada e as dores adormecidas Numa revoada de cores Trazem de volta a tormenta Encrespam as ondas e inundam o sossego abissal Era o alento o esperado (Pras mil vezes que clamei, em vão O ninho, o vinho, o pássaro, a mão) Mas não... Só o nada se mostrou Em meio aos hiatos Do sonho inacabado Agora,no adiantado da hora, Mostra-me a face da outra Minha irmã siamesa nos versos e no amor Que feito fardo, arrasto por ti "O que você está dizendo?" (13/12/04) Volta para o topo
Espichadinho Invento o ato Aceno o obsceno Espano o plano Belisco tormentas Estico cordas (bambas) Reprovo o experimento Bebo do veneno Atormento o sossego Embaraço novelo Desamarro cadarços Atropelo a cautela Cutuco onças Atiço as cinzas Apago o fogo Abro torneira Entupo ralos Encurralo currais Escôo rios Côo borras Sujo a roupa Surjo do nada Mordo a língua Lambo caras Afago falos Morro à mingua Rasgo lençóis Emendo ementas Surrupio sono Embalo a insônia Arremedo verdades Cultivo mentiras Atraso o compasso Desfaço o laço Esmaeço a melodia Abano o dia Rio do choro Corro pro rio Sofro o decoro Emudeço no coro Esfolo couros Aconchego touros Derreto gente Converto em ouro Fujo do mouro Suavizo explosão Trago mau agouro Corto facas Cuspo solidão Entorto pratos Enfio lanças Afio garfos Lanço espinhos Espirro espigas Entrelaço ninhos Entalo o verso Embalo abalos Inverto o reverso Subverte o verbo Pelo prazer, apenas, De espichar poemas Volta para o topo
Quero-te desassossego Caras e bocas Bocas e taras Línguas e falas Palavras e falo Rodeiam o halo Princípio de abalo Precipício do acaso Salto em tormentas Lanço-me em laço Embaraço e entrelaço A chama que clama O desassossego. Volta para o topo
Contemplação Na minha ingênua ignorância pergunto se há mesmo um deus tão bondoso capaz de amar incondicionalmente. Não se trata de duvidar da existência de deuses, a dúvida e a ânsia consistem no desejo de conhecê-lo e a sua sabedoria... As dores do amor torto que experimentei compelem-me ao desejo de um amor desprendido, perfeito: amar como se contempla uma paisagem... Não se aprisiona uma paisagem numa gaiola, como o faz o admirador de pássaros; ao observar uma paisagem, não descaracterizamo-la como se faz com o gato enjaulado no conforto de um lar; apenas sentimos a contemplação, guardamos o sentimento do êxtase, os sentidos do fresco da brisa, do cheiro do mato, da umidade ou da secura do ar, do colorido movimentado, ou da monotonia das poucas cores forjadas na luz, do calor ou do frio, dos sons difusos, mas harmônicos... Amar deveria ser assim como a contemplação, o apenas sentir e não o desejo de possuir... Amar como amava o poeta-guardador de rebanhos deitado na relva da simplicidade de apenas ser e estar com todos os sentidos ali... Empreste-me sua sabedoria poeta! “Se falo da natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe porque ama, nem o que é amar Amar é a eterna inocência, E a única inocência é não pensar...” Volta para o topo
Calo (no sapato ou na alma) Calem-se os sorrisos ternos (medíocres) Calem-se os sinos Calem-se as luzes Calem-se os ventos (que me trazem as palavras sem sentidos) Calem-se as cartas de amor Calem-se as promessas Calem-se os suspiros ridículos Calem-se as cores e os sabores Calem-se luares, alvoradas e crepúsculos Calem-se os risos irônicos (e mesmo os sinceros) Calem-se as frases otimistas (insossas) Calem-se os murmúrios doces Calem-se os consolos Calem-se as Callas e Kahlos Calem-se todos! Tudo que for dito agora é vão Todas as palavras serão vazias A palavra, lavrada agora, queimará feito lava Arrasará o significado do símbolo Banalizará os sentimentos Far-se-á inútil! A folha branca, abrancará as dores E o silêncio que se faz nesta hora (de adeus). Volta para o topo
Segunda-feira Um gosto de café amargo na boca Um opaco nos olhos A lembrança de uma tarde qualquer, Dos pedaços de sonhos da noite passada, Da peleja da semana que começa, Fragmentos de pensamentos (ainda flutuam na memória sonolenta) Mais uma manhã que se vai e o café que esfria na xícara A janela ainda aponta a mesmice Embora a luz seja aquela azulada (tão amada) Embora a brisa seja aquela quase fria Embora a vida seja aquela quase igual (a de ontem) Hoje parece quase mais vazia Quase sem gosto, Quase sem cheiro, Quase um desgosto Embora o amargo do café ainda persista Embora seu aroma permaneça Embora a música ainda soe forte nos meus ouvidos: Vou-me embora dessa terra segunda-feira quem vem, quem não me conhece chora, muito mais quem me quer bem ... Volta para o topo
Dor Não vou renegar-te mais minha velha companheira Perdoe-me pelo abandono momentâneo, Desviei-me dos teus caminhos, Fugi do teu encalço Do teu abraço embaraçoso, Dos seus afagos entrelaçados, Das tuas cores embaçadas, Apartei-me sem demora Fui embora na primeira condução Pros sabores da fantasia Tomei um atalho, Procurei a luz distante da tua sombra Apaguei tuas sobras Ocultei sem rodeios as tuas memórias Fui à desforra dos teus desatinos Mesmo assim você voltou generosa Veio manhosa, mas poderosa e resoluta Saudosa de mim Despeitada, mas arfante de ternura Agora você novamente mata tua sede no meu pranto Satisfaz-se com meu desespero Ri do meu desgosto Ah, Dor, minha velha companheira! Não disfarce a felicidade que sente ao se apoderar de mim... De teus espinhos ávidos por me arranhar Eu tiro as tintas pros novos versos Da tua feiúra tiro a beleza Da tristeza que tu insistentemente me ofereces Eu tiro a esperança. Esse defeito de fábrica, Herança das fêmeas ibéricas, Você não consegue afanar... Volta para o topo
Ranho Preciso de um aterro pro desassossego, Desabraços pro desapego, De veneno pro desalento, Preciso do grito preciso E inciso no teu ouvido indeciso, Da faca que te corta, Da unha que arranha, Preciso morder caras lavadas pro meu desagravo. Sou fera aluada, Bicho fungando no curral do sufoco Vaca braba de cria babando de fúria Potro sem doma Espinho afiado Rosa de plástico Lata amassada Brasa apagada (que teima em ser fogo). Sou o ranho de lama, Esterco de gado, Rato acuado, Afogamento no aquário, Baba de louco, Fogo no mato, Cuspe no asfalto, Sol a pino, Desatino sem fundo, Carrapicho e urtiga, Sou fome, sou sede, Sou berro sem eco, Desespero sem freio. Sou o feio O dejeto abjeto A fuligem, a fumaça, A sujeira. Sou o asco, O asno empacado, O sapato apertado, O burro de carga, O cadáver! Chão rachado Arame farpado Poeira da estrada (que leva ao nada) Um grito engolido Ar que sufoca Sou réstia do que resta Sou engodo no lodo Escorpião no corrimão Sou quem mais não presta Nem pra descrever A podridão da descrença... Volta para o topo
Enjoei! Ando à toa, perdida num vazio que sufoca, estorva, incomoda, quase arde, quase dói... Sinto um desejo de vomitar a mesmice da minha existência medíocre, pequena e insignificante, covarde, atrofiada... Tenho um grito entalado na alma moribunda; a descrença me contamina as vísceras, dilacera minhas verdades, desbota-me os sonhos, embota-me os devaneios, esgana minha gana... Tenho nojo da minha auto piedade piegas; tenho asco do que sou agora, quero desvencilhar-me das asas no salto pro abismo, quero enterrar meus pensamentos sórdidos que insistem em se arrastar feito vermes em lixo podre, quero pular de mim, rasgar minha farsa, escancarar minha vergonha, minha tolice... Sou ingênua tolice de crer na descrença, tola de esperar um porvir, tola de esmurrar as facas afiadas no desespero, de enfiar as unhas na lama, de plantar erva d’aninha em solo seco... Sou a ignorância, a intolerância, o ego torpe, sou a mentira, a farsa, a tragédia , sou a mesmice negada, a novidade fingida, terra ressequida, rosa traiçoeira, água parada...Enjoei-me de mim! Volta para o topo
Nome Sem rosto Saudosa da sua poética devassa, despida de pudores dissimulados, vago perdida na busca desenfreada do desejo inventado...Sucumbo ao torpor, mas não esmaeço, prossigo trôpega no calcanhar das tuas sandices... Na noite de sono arisco, clamo insone teu nome sem rosto... Volta para o topo
Pureza dissimulada ![]() Suspeito do meu desejo obsceno E me deito em deleite No leito de morte Da minha pureza dissimulada Volta para o topo
Ego Roubei a beleza dessa manhã de garoa fina Um sorriso malicioso, quase ingênuo, ilumina minha face Meus olhos refletem no espelho o prazer da imagem de bela que vê a beleza que ocultava Acordes flamencos, harmonias de Kali, cantigas japonesas singelas, sinos da Índia, mantras de almas serenas, dança do ventre, cheiro de incenso atiçam todos os meus sentidos... A paisagem da janela aberta pro horizonte, O quadro pintado pelas mãos que me afagam com desejo, Os ecos dos versos de um poeta qualquer, Trazem um frescor que me arrepia a pele... Fazem florescer, Florir, Desabrochar... O micro cosmo que inventei me aninha Nessa manhã que me banha em êxtase sereno... Chuva de gotas finas e delicadas salpicam a paisagem, Umedece o ar que brinca de fazer espirais nos cabelos vermelhos que forjei Deixa-me suave, terna, mágica, fluida, linda... Volta para o topo
Teu espírito Teu espírito, mais uma vez, visitou minha noite. Vagou no escuro com plumagem nos pés Veio sorrateiro, traiçoeiro, como sempre. Penetrou na penumbra do meu pensamento dormente Brincou com as frases desconexas que teimavam em resistir ao sono Desordenou as palavras ordinárias que forjavam frases difusas Riu das suas bobagens ritmadas Gozou da sua ingênua malícia Fez poesia e se foi, Deixou rastros esquecidos, palavras jogadas na memória do sono, Orações incompletas, sem sujeito, ações sem verbos, fragmentos de signos esgarçados... Fiapos de pensamentos, agora na luz, flutuam inutilmente na impossibilidade do retrato fiel do infortúnio encontro que ainda me inebria. Resta esperar que ele volte numa noite de sono alerta, aberta pro desafio do duelo de vida, pronta pra enreda-lo, encarcera-lo e roubar-te a poesia das traquinagens do teu espírito atormentado... Volta para o topo
Entre isso e aquilo Entre o riso e o choro, a distância ínfima Entre o rio e a margem, a correnteza a arrastar certezas Entre a treva e a luz, apenas o passeio do astro Entre a tristeza e a alegria, a distinção necessária Entre os extremos, a condição de ser finito... Volta para o topo
Maria Isabel Maria Que é Isa Que é Bel Isabel, princesa áurea Menina alada Asas brancas abertas no azul do firmamento Do verde dos teus olhos, donde repousa a menina, Brotam fantasias que brincam com a beleza das ilusões Suas cores reluzem os sonhos da bailarina-trapezista Que salta do infinito à brincadeira de casinha Vai menina, exala seu perfume Inebrie as vidas insípidas que ignoram a poesia do seu sonhar Brinque as verdades fingidas Tinja de cores o preto e branco da vida Vai Maria Vai Isabel Alforrie os devaneios do cárcere das almas feias É essa a sua missão de princesa imaculada Vai princesinha Voe alto no salto da vida... Volta para o topo
Don’ana Don’ana Bacana
Que gosta de cana
Café de pijama
De beijo na cama
Da tarde na grama
Quand’ama se dana
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Silêncio! Shiiiiu!!!!
O silêncio pensa.
Em silêncio o pensamento
Pensa que é silêncio
Mas seu silêncio pensa.
Fábrica da miragem
Morada do devaneio
Torno da imagem
Shiiiiu!!!!
O pensamento pensa
Que é verdadeiro...
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Branca é a tela Na espera Das negras letras Que serão palavras pretas Na alvura da bela (Ou será fera?) Na tela A espera Esmera A poesia Que há por vir Que há de exprimir (Ou será necessário espremer) Para que saia os desatinos sem rima Sem regra Sem freio Sem cisma? Volta para o topo
Exibida A exibicionista Pretensa Intensa Inspira Aspira Cof, cof, cof!!!! Poeira Na beira Da soleira Da vida Espremida Da ferida Sentida No doce querer ter Ou ser Pura exibição Exibida De menina Querida Fugida Da inocência Perdida Volta para o topo
O aquário de Don'ana Vivo num aquário, num ninho, numa jaula de janela vazia de limites. Vislumbro o horizonte de fronte no front da vida. Ora assusta, ora engana, ora dana, ora amplia ainda que a hora pareça tardia. Refúgio, masmorra, torre, caverna taberna, trincheira na beira da guerra, na leira de terra onde planto o pranto e o encanto.Resguardo-me na penumbra fria e úmida da qual prolifera a espera do que há por vir, e em solo fértil de húmus fétido de cadáver vivo brotam devaneios insanos... “Cabeça vazia, oficina do diabo...”, sábio Lúcifer, planta no vaso vazio da mente a semente da demência que fantasia ter a vida querida, mesmo que num breve instante de não lucidez. Volta para o topo
O que é isso que dá e passa, vez por outra? Dá no pulso como impulso. Dá sem razão Na vazão da não razão. Na invasão do vazio Evacuo-me Do vácuo de mim! Volta para o topo
Risco Eu arrisco
Um risco
Um rabisco
Um cisco
De pensamento
Um tormento
Um alento
E ARIV isso!
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Pura Impura Empurra A puta Bruta Abrupta Mente! A tristeza que sente Minta! A verdade que tem Finja! A pureza da mente Inveje! A inocência da puta Santa pura de luxuria Solta a puta pura!!!! Volta para o topo
Professores Professam Profecias Empobrecedoras Professores professam profecias emburrecedoras... Blá, blá, blá... Blá, blá, blá, blá, blá... Rhu, rhu, rhu!!! (Pigarro-pedagógico) Verborragia Pedagorrenta! Professas hipocrisias Acreditas mesmo no que diz Profissional das profecias? Sacerdotisas o ser Empobreces a criatura que crias Mitifica o saber... Subordinas a criação (Dormes tranqüilo depois?) Dogmatizas a ciência Crês no saber assim como na religião? Era esta a tua missão? Sujeita-se a não ser mais sujeito de sua ação... E agora profeta ? O que te moves, Se não acreditas mais no que faz? Não querias apenas ser poeta? Volta para o topo
A tela A telha Abelha Aranha Arranha Na teia Da telha A vêia Da velha Alheia A tela Na teia Alheia semeia Na veia Da bela A espera Da vela Na tela Da teia Volta para o topo
A palavra em si já é precisa. Às vezes nos revela o que ocultamos, ai dizemos que é Volta para o topo
Minto Mente Minto Mente Penso Minto Pensa Mente Pensamento! Pensa... Mente! Pensa... Mente! Mentecapto! Pensa E Mente! ->Volta para o topo Página modificada em 12/11/2008 às 09:14
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